domingo, 31 de julho de 2011

Coisa de Pele ( Primeira Parte)


" Digam que estou doente. Digam que estou doente de amor" ( Cânticos dos cantos)

Para Chico Buarque
 que me inspirou após ler Leite Derramado

Em meio ao velório da moça, os choros e as ladainhas eram cortados com perguntas de forma meditativa em relação ao se colocar livros no caixão ao invés de flores. Talvez, poderia ser por causa das flores que murcharam e não adiantava ficarem colocando outras e a moça sempre fora uma leitora de tudo. Somente aos poucos, alguns entendiam a atitude e o real motivo daquilo. A mãe sentada e quieta no canto da sala levava a razão verdadeira sem comentar. Com toda habilidade, tratou-se de desviar a verdadeira razão daquela morte. Os homens e as mulheres ali no funeral sabiam que a estranha doença apressou a morte da moça.
Alguns jovens desenvolvem acnes em todo o rosto, mas a moça criou manchas escuras que causavam pavor. As manchas se apresentaram ainda na puberdade e toda a adolescência dela, afastando as amizades e a convivência social. Fez uma peregrinação à vários médicos dermatologistas que observavam e examinavam cuidadosamente os sinais no rosto e não conseguiam curá-la. Exames de todas as ordens eram feitos e nenhum conseguia diagnóstica precisamente ao certo o que aquilo era realmente: Coisa da idade, alergia ou germe. Procurou-se até a ajuda de curandeiros, médiuns e outras denominações religiosas e nada. A psicologia também causou uma decepção maior, não coisa de alma...
Mas, foi numa sexta-feira da paixão que ela finalmente encontrou o médico que conseguiriam mudar o sofrimento e enfim curar a estranha doença que obrigava a moça a usar um véu. A beleza desfigurada era um misto de horror e desejo. Enquanto esperava a vez de ser atendida, a moça tinha nas mãos um livro que lia. As leituras foram refúgios de aventura da mocidade dela, já que era privada da vida social comum.
Ao entrar na sala, o médico reparou nisso. A moça com um véu comprido o rosto, vestido simples e um livro na mão direita. Notou porque era também leitor de romances desde menino. Ler livro tornou-se uma forma de escapulir da criminalidade na qual viveu. Era um doutor diferente dos demais. De origem humilde e negra, fora vária vezes motivos de discriminação por causa da pele, daí talvez a escolha por ser médico dermatologia. Sofrendo com os obstáculos sociais e as dificuldades da profissão, ele conseguia manter uma vida razoável, porém tinha um sentimento cético em relação às pessoas.
Para deixar a paciente mais tranqüila e iniciar a consulta, elogiou ela por ser leitora e perguntou qual o titulo do livro. O diálogo aproximou ambos e daí, veio a conversa sobre a doença da pele. A moça relatou com detalhes como tinha sido sua vida até o momento em que adquiriu as manhas. De maneira delicada, ela retirou o véu. Então, o médico observou o rosto por um momento demorado. Baixou a cabeça e prescreveu vários exames para serem feitos e em quinze dias iria ver o que fazer após os resultados. Como tinha a mania de levar  livros no consultório, o médico resolveu emprestar um à moça. Em retribuição ela lhe entregou o livro que levava.
Quinze dias se passaram e o encontro entre a moça e o médico revelou outra novidade. A doença estava ausente do rosto dela, o olhar claro e um sorriso constante na medida em que relatava o sumiço das estranhas manchas, encantou o médico. Ele ainda observou o exame que ela trazia, mas não sabia o que acontecerá. Depois de tudo que disse, ela devolveu o livro que tinha pegado emprestada. O médico e a moça se envolviam em algo em comum que era a leitura de livros, talvez isso poderia ser o motivo para a real cura dela e o surgimento da paixão.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Rios




O transcorrer de nossa vida pode ser como um rio. Da nascente até o desaguar no mar, nos metaforizamos em riachos, córregos ou rios. Somos águas correntes que se cruzam, afluem de uns para outros. Às vezes, somos águas perenes, caudalosas e ainda serenas ao longo da existência. Em determinado momento somos doces e noutros salgados. Guardamos segredos submersos que somente mergulhadores descobrem ao atingir o fundo do que somos. Por outras razões, fazemos boiar objetos ou pedaços de coisas que flutuam tranqüilos ao longo do leito.
Movemos moinho que geram energia, Irrigamos lugares áridos que brotam esperança. A nossa vida é como um rio com pescadores em canoas jogando a rede, crianças se banhando, mulheres lavando roupas e vaqueiros levando o gado para beber água. Deixemos as pessoas em formas de rios transcorrem ao longo da vida, seguirem os cursos naturais. A maior alegria de um rio é deságua no mar e de um ser humano também.