O que hoje se tornaram políticas públicas de Estado é fruto das lutas contínuas dos movimentos sociais ao longo de anos, décadas e até séculos. Cada revolta colonial já pode ser entendida como uma manifestação do que denominamos movimentos sociais. São lutas antigas que surgem do "basta" da população explorada economicamente e também excluída da formação do Estado brasileiro. É bom lembrar que essas revoltas foram ora reprimidas duramente pelas autoridades, ora vencidas pela população. Podemos afirmar que a história dos movimentos sociais no Brasil se confunde com a conquista dos direitos sociais, políticos e civis.
Cada movimento social possui sua
própria reivindicação, diferente uma da outra. Cada movimento social é um ator
que surge da realidade coletiva. Pode ser um anseio geral ou algo particular
que comove a opinião pública. Uma luta se desenrola a partir de outras, ou
várias se unem em torno de uma nova pauta. Porém, o que há em comum entre eles
é que todos se organizam de forma coletiva e que a busca por direitos é
constante e sem fim. Tomemos como ponto de partida a luta pelo direito à
educação das categorias mais excluídas das escolas: podemos citar a luta contra
o analfabetismo, que se soma às políticas públicas de universalização do ensino
no Brasil. Depois, essa luta passa a abranger a educação das comunidades
tradicionais e quilombolas; em seguida, a busca pelo direito à educação de
pessoas com necessidades educacionais especiais (NEE); e assim por diante, até
chegar ao combate às exclusões com as leis de cotas raciais e sociais e ao
respeito e à tolerância à população LGBTQIAPN+ nas unidades escolares. Por
outro lado, a busca por acesso à educação pública de qualidade universal passa
por uma reivindicação que faz parte da educação básica. Os educadores sempre
buscaram a garantia de um piso digno para o magistério e o financiamento da
educação pelo Estado brasileiro como elementos importantes para um projeto
educacional do Estado brasileiro. Assim, o direito à educação pode ser visto de
fora para dentro e de dentro para fora da própria escola.
O desejo de mudar uma situação
constante, a vontade de reagir a uma catástrofe ou a manifestação de
insatisfação com determinada situação social ou política de governo faz nascer
um movimento social específico, assim como organizações não governamentais
nascem dessa situação. Podemos perceber isso pela linha histórica recente no
Brasil. No início do século XIX, com o processo de industrialização tardia no
Brasil, começam a se articular os movimentos operários e urbanos na sociedade.
Já no século XX, a luta por reforma agrária, com as ligas camponesas e depois o
MST, e a reivindicação pelo direito à educação agregam parte significativa da
sociedade brasileira. Só para ressaltar que hoje o maior movimento social
organizado na América Latina é o MST. Mas o MST, no início, lutava por reforma
agrária e hoje tem várias frentes de lutas populares.
Na década de 1980, com a
redemocratização, a luta política por anistia dos exilados políticos e o
direito ao voto sacodem toda a população brasileira, culminando na Constituição
de 1988. Hoje, os movimentos sociais ganham novos agentes que se somam aos
antigos, pois as novas formas de exploração e a retirada de direitos
conquistados levam a população marginalizada a se organizar social e
tecnologicamente depois do advento das redes sociais e da internet.
Os movimentos sociais seriam um
terceiro setor da sociedade em que o Estado se ausentou por estratégia própria.
Ao lado dos sindicatos de representação de classes, das centrais culturais e
das ONGs, os movimentos sociais compõem uma parte importante da sociedade civil
e política no Brasil. Porém, a imagem que eles têm nem sempre conta com o apoio
e a compreensão da ampla maioria da população. Às vezes, as ações de luta dos
movimentos sociais — como ocupação de prédios públicos, bloqueio de rodovias ou
piquete em fábricas — podem ser classificadas pelas autoridades, pela mídia
hegemônica e pela elite brasileira como coação ou como obstáculo à ordem
social, dependendo do ponto de vista de quem não faz parte daquele movimento. O
protesto ou a manifestação, embora seja um direito político, pode ser visto
como algo negativo, motivando investigações policiais contra os coordenadores
das entidades organizadoras. Diante desse olhar das autoridades, a mídia e
certas entidades geralmente classificam os manifestantes como um "bando de
desocupados".
Assim, os movimentos sociais no
Brasil passam por enxurradas de condenações, mas conseguem agregar a opinião
pública para apoiá-los na mudança de paradigma. Vejamos o fim da escala 6x1,
que foi desenvolvida pelas centrais sindicais e movimentos sociais até chegar
ao Congresso Nacional.
A luta pelo direito à educação
nem sempre foi explícita na sociedade; porém, a necessidade de combate ao
analfabetismo era algo sempre lembrado pela sociedade civil organizada e pelo
Estado. No entanto, a Pedagogia de Paulo Freire consegue despertar o movimento
para essa mazela da sociedade brasileira, principalmente nas regiões mais
esquecidas pelo Estado brasileiro. A experiência de Angicos – RN foi um
importante marco para a educação e a organização dos trabalhadores rurais, pois
nela se uniam a consciência cidadã, o conhecimento e a aprendizagem. Ela foi maior
do que se imagina, tendo sido aplicada em outros lugares do mundo, como Chile,
Cuba e China. Hoje, existe a política pública de educação de adolescentes,
jovens, adultos e idosos (EJA) para aqueles que estão fora da faixa etária
considerada adequada. Essa política pode ser considerada uma conquista do
combate ao analfabetismo nas décadas anteriores, o qual, em alguns lugares, foi
exitoso, eliminando o analfabetismo. Por fim, lembremos as palavras de Darcy
Ribeiro: “ A crise da educação no Brasil não é uma crise é um projeto.” E os
movimentos sociais buscam acabar com esse projeto.

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