quinta-feira, 24 de junho de 2010

O NOME DAS COISAS

 "Há lágrimas na natureza das coisas 
e a certeza do efêmero nos toca o coração." (Virgilio)


   Os sentimentos são dinâmicos em relação as coisas que possuíamos e deixamos de possuir, se constroem e se desconstroem empiricamente. Nos acompanham sem percebê-los e se frutificam como desejos  ao  longo da existência. Assim vão se acumulando na memória até nos ensinar nomes verdadeiros e não inventados por nós. 
   A vida de Otto foi assim. Recebeu o primeiro presente um gato siamês, nem sabe quem foi. Era a festa dos seus 10 anos. Se recorda do  nome era "Zabe", dos olhos azuis e relembra dos carinhos. O leite no pires feito mimo pelos cantos da casa eram constantes; das brincadeiras e dos cuidados que  rodeavam a convivência dele com seu primeiro animal de estimação. Aquilo era novo para Otto. Ter um sentimentos retribuído, como era algo espetacular dar nome a seres vivos. 
Um dia, Zabe apareceu aos tombos pela casa  parecia está doente, ou pior, envenenado. Na frente de todos suspirou sete vezes. O gato faleceu e deixou o nome na memória. A suspeita de que algum vizinho teria sido o mandante de tal mal feito ficou na cabeça dele, mas logo desapareceu. A inocência foi se transformando em desconfiança e o sentimento de perda pelo de vingança.  Um velório foi providenciado com direito a vela e caixão. 
   Para não deixar o fato acontecer de novo.Os pais preocupados, resolveram lhe presentear com um pássaro. Escolheram um nome: Fênix. A gaiola fez Otto ficar pensativo com os voos limitados do pequeno pássaro, com a solidão de se cantar sozinho. Será que Fênix estava acostumado com a gaiola? Otto resolveu testar e deixar a porteira um pouquinho aberta. Num piscar de olhos, viu ir pela janela da casa, sem voltas e sem cantar sua Fênix. o susto e a gaiola vazia gerou um sentido de desamparo, de desencanto.
   O tio soube do ocorrido e lhe trouxe um aquário com quatro peixes. Otto como de costume nominou  cada um deles. As fêmeas eram  Julieta e Isolda; e os machos: Tristão e Romeu. O aquário tinha um castelo no fundo ficou na sala. Otto observava por horas o nadar dos peixes que o deixava mais paciente e com a certeza de que ninguém iria envenená-los e nem haveria a possibilidade de saírem do aquário  Limpava o aquário regularmente e sempre era cauteloso com a alimentação. Uma tragédia  se anunciava: a mesa onde estava o aquário com os peixes era velha. Numa tarde, a mesa rompeu-se levando ao chão o aquário e matando Julieta, Isolda, Romeu e Tristão. Quando chegou em casa não tinha ninguém, sozinho viu a cena dos quatros peixes ainda pulando pela sala querendo aquário e encontrar vida. Tarde demais. Otto ficou silencioso e era ruim  aprender com os bichos de estimação o sentido da morte e das ausências. 
   Novamente tinha a vontade de ter um bicho de estimação para superar o anterior e o que interessante dar-lhe um nome. Resolveu  ir ao Zoológico, poderia ser uma forma de acalmar o amor pelos animais, mas acontece que depois de vê-los e admirá-los, existe a separação na saída. Desistiu de ir sempre ao zoológico.
Apesar da promessa de não cuidar mais de bicho nenhum,um novo hospede veio a casa nos dias seguintes. Um estranho levou uma caixa até a frente da casa e deixou na porta. Nela tinha um cachorro ainda novinho, ao vê-lo se apaixonou e pôs o nome de Èdipo. Fez juras de que não abandonaria ele e que o destino seria menos cruel. Se Otto ia para a cozinha de lá olhava Édipo dando os primeiros passos. O tempo parece que se encarregou de apagar as lembranças do passado para um carinho maior e brincadeiras no presente. Com Édipo por cima do tapete da sala, Otto se entregava ao prazer de estimar animais; o cachorro cresceu um pouco e o suficiente para ser a companhia dele na praça quando sai. O transcorreu tanto da amizade se consolidou e Édipo ficou bonito e chamava a atenção de todos. Certa manhã, Otto percebeu que Édipo tinha sido roubado. Assim como o presentearam também o leveram. Colocou anúncios em jornais e na televisão, as semanas se passaram e nada. Novamente ele ficou decepcionado com o gostar e querer de animais e pessoas que morrem pelo sofrimento que trazem ao falecerem ou ao desaparecerem. Os sentimentos de ligação não são bons, fazem sofrer.
   Otto procurou contornar a ligação com os seres vivos. A relação mútua de sentir-se amado e amar e preferiu transferi-lá para outras instâncias. Inventou vida com humor e amargura aos seus pertences, construiu histórias românticas e nomes com apelidos aos objetos que estavam espalhados pela casa. Primeiro veio a cama: Serena. A mesa se chamava Prazeres...Como um criador determinou ordens e posições que o ligava a funções de cada um dos objetos  e nada lhe escapava. Lembrava dos pegadores de roupas no varal: Zé arrochado, Bicudo, Paulo Midin...As vezes, quando chovia de noite, ele acordava e ia até o quintal retira-los de lá. Os fósforos eram chamados de Luís I, Lume II e assim por diante.  Seria consciente em saber que os objetos não morrem naturalmente igual aos viventes, os objetos podem ser recuperados e ficarem eternos se possuirem atenção e cuidados devidos. Não precisam de vacinas, rações e banhos ou passeios matinais. Eis a diferença entre ter bichos de estimação e objetos de uso e cuidado. 
No entanto, ao voltar do trabalho num dia, Otto encontrou toda a sua casa rouba. Aquele objetos com nomes e histórias agora estavam desaparecidos da memória e assim como se fora seus animais de estimação. Nada escapava aos sentimentos de decepção em curtas lágrimas e de morte na vida dele, nem os bens materiais que nunca foram recuperados.

domingo, 20 de junho de 2010

SER BRASIL OU NÃO SER BRASIL








 " Ser elite no Brasil é virar estrangeiro no seu próprio país." 
( Roberto da Matta)

 

O Brasil ainda não foi pensado como necessariamente deveria, sem a devida atenção e cuidado.  Por não ser pensado como objeto de análise, nós perdemos a oportundade de viver ainda melhor. Isso acarretou sérios problemas sociais ao longo do tempo. Se faz urgente para nós brasileiros pensarmos e buscarmos sistematizar  essas análises para os problemas seculares que vivemos, tais como questões como educação, saúde e organização social. Não estou querendo fazer apologia a marcha disso ou daquilo como nas cruzadas, mas desenvolver o senso análico em cada cidadão. 
O que foi análisado até agora se realizou  de forma assistemática para responder a necessidade e interesses pessoais. Um povo desorganizado é fácil de ser controlado, faltou tradição em teorizar sobre a  nação e os seus problemas, até dificeis de serem transpostos devido a isso. Uma pessoa que gosta da cultura brasileira se faz pensando nela, alguém que se orgulha de ser brasileiro, pensa e quer saber das origens e significados culturais nosso. 
Mas, não é qualquer pensamento idilico sobre a natureza ou das manifestações culturais de Norte a Sul como é costume ver a exaltação nacional que vai realmente mostrar quem somos e como vivemos os nossos problemas. Precisamos usar as Ciências ao nosso favor, e principalmente as Ciências Humanas com coerência e multiplicar as pesquisas nessa área.  Se não houver uma organização teórica e sistemática sobre nós brasileiros, guardando as devidas particularidades; poderemos viver um ciclo de atraso que justifique as desigualdades. O  pensamento social brasileiro de forma acadêmica só veio se consolidar na metade do século XX com as obras de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior. Ou seja, recentemente. Temos carências históricas e estruturais a esse respeito  e isso  deve ser superado com teorias que possam pelo menos explicar a realidade que vivemos de forma coerente. Pagamos um preço alto pela ausência de se pensar o "Brasil" como objeto de investigação cultural. Basta vermos o presente e a realidade atual dos segmentos sociais, como também nas perspectivas de planejamento e políticas públicas. 
Não desmerecendo os poucos que ousaram registrar ao longo da história os hábitos e a formação do povo, álias com respeito e reconhecimento devido, pois se não fossem eles, talvez nem teriamos a noção do que foi o processo colonizador e de modernização do país. O que houve anteriormente podemos classificar  como relatos e ensaios sobre "as brasilidades" que tinham como principais expoentes navegadores, padres e aventureiros que por aqui passaram.
Pensar o Brasil e descrevê-lo como realidade fez parte da literatura nacional, os escritores sempre tiveram o interesse em revelar os personagens com suas dramas ligadss ao cotidiano que observam, embora fossem relatadas abstrata, tinham a base nas condições sociais. O que pode-se afirmar foi que houve nas escritas um certo preconceitos imbutidos ao grupos deserdados. Buscava-se justificavar o "atraso" social pela identidade mestiça da população. Isso teve sérios danos para a auto-imagem do ser brasileiro, como diria Nelson Rodrigues: Um narciso ao avesso. O discurso comum do cidadão é sempre de que somos ruins e não temos jeito. A quem interessa a manutenção dessa ideia ? A todos que poderem tirar proveito e lucrar com isso. 
A teoria social pode desconstruir justificativas errôneas acerca  de problemas sociais, mostrar uma nova modelo de imagem que resgate um sentimento de ser únicos com aspectos positivos e negativos. 
A ausência de pensarmos o Brasil, nos faz estrangeiros dentro da  própria cultura. Assim igual ao estrangeiro que não reconhece  os hábitos e os costumes de um povo diferente do seu, existe essa categoria de brasileiros, independente do grau de formação. Não somos piores e nem melhores do que os outros, quer sejam Argentinos, Estadounidenses e Europeus. Os trabalhos cientificos que já aparecem podem servir para atuar na realidade dos grupos desprivilegiados do país. Esses pesquisadores tem conseguido revelar um Brasil e temos que pensá-lo para não desandar a nossa coletividade e sentimento de sermos uma nação pensada.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO E A SUA HUMANIDADE

" Agora não há outra música senão a das palavras e essas sobre tudo as que estão nos livros, tão discretas e ainda mais curiosas..." ( Saramago)



Nos últimos meses experimentei uma relação de  leitura  da palavra e releitura da realidade com Saramago. Ao mesmo tempo que pesquisava quem era Saramago e lia suas obras. Isso começou de forma espontânea e sem rigor acadêmico. Era uma noite de risos e conversas prazerosas entre amigos num apartamento comum a qualquer um de nós. Já estava fora do prédio e nos despediamos, quando lembrei dos DVDs esquecidos na sala. Alguma dia escrevo sobre isso que teima em mim...Ensaio sobre o esquecimento, benefícios e maléficios? Então, resolvi voltar e ir pegá-los na sala. Na estante onde estavam os filmes, vejo o livro:  ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA. Pedi emprestado e levei o livro e li simplesmente. Dai não parei, veio a vontade de ter mais um livro e  outro amigo sabendo disso me presenteou:  Ensaio sobre a lucidez (totalmente diferente da cegueira). Num efeito focado no autor, peguei emprestado na biblioteca: In nomine dei e Levantado do Chão. Recentemente comecei a ler " Caim." Além disso vi documentários e entrevistas sobre o mesmo e o filme de Fernando Meirelles; li artigos e críticas a favor e contra ele. Assim despreocupado fui lendo e entendendo quem era esse homem. Acredito que sei pouco sobre o mesmo apesar disso, Saramago  é assunto amplo e profundo como convem ao artista impar. A mim disperto o lado de pesquisador por prazer.

A lucidez e a criatividade  se combinam nas obras de José Saramago. Mergulhei no universo dos  personagens de uma cegueira branca, senti fome junto aos pobres explorados em levantado do chão, me tornei cumplice nos dilemas éticos de Caim com deus...e viajei para os cenários descritos por ele. Foram meses que nutriram a inteligência em mim. Até me atrevi a escrever contos a partir do que lia e vivia na realidade cotidiana tendo como fonte José Saramago, firmou-se o lado em mim do escritor canhoto. Todos os amigos próximos sabem disso, pois ouviam os relatos das leituras e principalmente sabiam da satisfação de cada obra que consegui ter nas mãos e as análises que fiz a partir do que lia contagiado com Saramago.  Me transformei sem ninguém perceber e tomei o ato significativo de ser sempre leitor. Um livro dele pode ser crucial para mudar as lentes da realidade. Dai, me empolguei para entender a biografia do português ganhador do prêmio nobel de literatura. Do seu nascimento até receber o prêmio Nobel de literatura, valeria um livro. Enquanto ia levantando a vida dele ao mesmo tempo me animava a razão de saber que não estou só num mundo masssificador. Explico melhor por que digo a solidão: Faço questão de dizer que o mundo anda ao contrário ao saber que um homem de 87 anos consegue perturbar as estruturas políticas e religiosas dos poderosos lusitanos com  palavras artísticas e esse homem é/era JOSÉ SARAMAGO. Hoje existem escritores aos milhares para se vender muito livros e ficarem na lista dos mais vendidos, mas são escritores sem nenhum significado e profundidade para a experiência amorosa de ler.
A arte de escrever ao que chamamos de romance, associado ao prisma de expor a realidade pelo tom minucioso e cauteloso está presente em cada livro. Saramago sempre sabia o que deveria escrever e ontem chegar em cada capitulo. A pontuação é própria e ritmica, parágrafos quase não há, pois é de um fôlego só que você vai adentrando as histórias e nos enredos. Por vezes subverte a obra com desregrar as ordens de pontuação como uma composição sonora. Noutros momentos, nos faz lembrar a  etnografia ( no sentido amplo do conceito), típico dos antropólogos em trabalho de campo. A diferença para começar, guardando os devidos modelos, é que Saramago usa a arte e não as teorias cientificas da Sociologia, Política e Antropologia para expor os dramas humanos e sociais.
As leituras vieram e preencheram o vazio da sala, a ausência de algo na cama antes de dormir e dos dias em que precisamos de livro companheiro para ler. Reinventei uma humanidade segundo o olhar de Saramago e me apaixonei pela literatura. De fato, há muito tempo atrás já tinha lido o Evangelho segundo Jesus Cristo que depois influenciou um amigo de teatro a monta uma pequena peça sobre o mesmo título ao me ver com o livro. Outro detalhe foi o crescimento e a maturidade. 
Hoje no final da manhã, quando chego da escola e ainda sentado no sofá, o mesmo amigo que me emprestou Ensaio sobre a cegueira, me liga. Diz que não tem noticia boa para mim. Falou que Saramago havia morrido, começar a ler o artigo na internet pelo telefone. Fico um pouco em silêncio, o velório do escritor com o leitor se inicia a partir daquele instante. O amigo talvez nem reparou nisso, procurei organizar a realidade sem Saramago. Remexeu a notícia sensivelmente no dia 18 de junho. Estou  aprendendo e descobrindo as obras de um homem que morre, porém é novo.
A capacidade de entender a natureza da vida humana na frágil experiência com a morte apareceu nesse momento. O novo-velho humano se fez em mim com a noticia sobre a morte de Saramago, ao longo desses meses consegui ir profundamente nos questionamento sobre a existência de deus sem medo ou receios nessa hora, a análise a vida em Sociedade e outros temas tão convergentes no escritor. Saramago ainda continuarar a ser um habilidoso artista das letras, também talentoso com a própria morte, num tempo atual que é dominado por falsas crenças  em deuses e leituras de Dan Brown e Sagas de Vampiros medrosos,  ler o ponto de vista em Saramago é reencontrar-se e se tornar mais astuto com as palavras do português. Assim, espontaneamente vai o homem e ficam as obras e a saudade.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ADÃO REVISTADO



Antes de nascer o mundo, já havia Adão e suas costelas do corpo que ele as acariciava feito um objeto sagrado e de prazer. Não ocorriam  histórias sucessivas para se terem na memória e além disso, cada noite se vivia igualmente a anterior. De vez enquando uma voz interior  aparecia na consciência mandava e  reprimia qualquer tentativa de desobediência, essa locução sabia que só podia controlá-lo por algum tempo. Era uma relação nada boa entre criador e criatura, esses papeis não eram tão claro assim. Adão levava a rotina monótona, sem diálogo ou crise existencial, tudo era bonitinho que sem qualquer sentido pudesse ir para o futuro. 
Certa vez, ele roubou o fogo da voz interior e aprendeu a controlar e queimar seu medo. Denominou os nomes dos animais e das paisagens da montanha,  da serra e  dos vales, enfim de tudo o que via ao seu redor. A voz  interior  tinha lhe dado novas técnicas para viver como uma forma de retomar a amizade com  ele e a costela. Entretanto, a solidão levou o primeiro homem  a pensar em suidicio por causa do tédio, queria os outros para conviver. Como disse o pensador: Os outros são o inferno.
Numa noite a costela sagrada foi retirada em sono como um roubo e uma forma de se vingar dele. Adão nem percebeu isso direito sonhava com os prazeres do seu corpo e especialmente da costela, os sonhos vagos que lhe perseguiam a noite e sua  tudo desencantou e ficou diferente. Eis a mulher com a sangria mensal e a história começou a se entorta para futuro infernal. A partir daí, a relação conflituosa entre a mulher (bendito ao fruto de sua costela) e a serpente, depois veio à existência da árvore que possuía o conhecimento. Adão nem pensava mais na sua costela...
Desfrute de tudo, menos daquela árvore no meio do jardim, do Eden dizia novamente a voz interior. Mas, errar é humano e desobedecer demasiadamente humano.  A fome de saber era maior e inevitável e leva as mordidas que eram dadas nas rosas como alimentos, agora tornavam-se constantes nas carnes e  se roí os ossos.  Debaixo da árvore, na sua sombra, Adão cortou com dentadas o conhecimento, sem ser um canibal selvagem, a surpresa maior está nas mordidinhas civilizadas do nosso Adão que num exercício mecânico conseguem separar as partes da fruta do conhecimento e alcançar o caroço saboroso por essência propriamente dita. 
O mastigar e misturar o que antes estava num só objeto e agora dividido, vemos o quanto os dentes civilizadamente são fortes na alquimia de nos enganar assim como gostou o primeiro homem em morder. Dividir as partes do conhecimento desigualmente feitas a mordidas educadamente de boca fechada e depois misturar  numa massa compacta o que julgo ser saber, eis a  tarefa dos caninos, molares e incisos para fazer com que compreendemos a vida educacional. Com  a saliva (como tem saliva na sala de aula) e  ajuda das arcádia superiores e inferiores, essa massa-conhecimento será engolida e feito energia e capacidade para ir mais, Adão consegui cospir.
Assim se perde a costela adquirindo um inicio de mundo  e se ganhou a fome de saber. Melhor dessa maneira, ter os desejos para serem satisfeitos do que tudo que lhe traga o vazio.  Morder o universo do que quer possuir e abocanhar, sentir os sabores, paladares e formas. A vida seria sem graça se houve só a costela e a ausência do querer.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Morte ou Vida da Poesia



 Quando olhamos  o céu e observamos somente a cor de cimento nas nuvens,  mesmo que o azul anil do firmamento esteja lá, reviramos os sonhos e não somos puros como os anjos. Se usamos o comportamento de "homem gelo" para alicerçar  outros interesses nas relações sociais, numa terra onde reina o calor da vida e a espontaneidade das pessoas, percebemos que tomamos a contra mão do afeto.  E se notamos que estamos caminhando lentamente pelas ruas quando outrora andavamos  nas mesmas dando pequenos saltos, constatamos o rídiculo se apossou do ser. Ou se por acaso, o sorriso e matreiro sorriso ausentou-se inexperadamente dos lábios e levou-nos também a alegria sonora e contagiante da gargalhada, viseja-se que nós quebramos a barreira do amor próprio. Rir de si mesmo é um hábito saudável. E se o brilho dos olhos apagaram inexplicavelmente e antes era visto como chamas e  hoje enamam apenas um breu, pode-se dizer que  encerramos nas cortinas das horizontais das retinas. E mais que de repente,  o silêncio avançou em proporções nos cômodos da casa, fazendo as músicas ficaram encalhadas nos velhos vinis e nas capas e encartes e a beleza viajou sem nos deixar nenhum recado e a maior satisfação está nos paraísos virtuais, sem amigos de carne e osso. Qual o sentido da vida em sociedade e com o outro ? Ou se agora, quando levamos a mão ao peito e sente a batida de uma pedra em fúria no eco do corpo ao invés de um coração pulsante de emoções. Os sentimentos se evaporam-se. Portanto, podemos concorda que por vezes percebe-se que não nos reconhecemos mais. E as roupas parecem estarem pelo avesso, mas na verdade estão do lado certo...Acreditemos que de fato, não é depressão ou crise por ver o céu cinza, o sermos homem gelo nesse fado tropical... As situações não flutuam por magia das palavras nem tão pouco ficam aprisionadas em gaiolas de ouro e se quer  perdem o encamento por maldição delas com uma fada bondosa. É apenas a poesia crua e nua que se faz presente em vida, mesmo quando a existência machuca e desencanta.

sábado, 29 de maio de 2010

O ÚLTIMO IMPERADOR









  

 


O seu esforço era viver como os rapazes da rua. Desapercebido de todos. O seu desejo era de arranjar simples emprego. Ficar esquecido da fama de futuro jogador ou do talentoso escritor no bairro como comentavam na escola. Não ia troca os pés pelas mãos,  como fazem os pais com os filhos querendo vê-los como jogadores famosos. Nem tão pouco ficar de pernas para o ar igual  aos rapazes, depois tentar e tentar e não conseguirem se profissionalizarem no esporte.  As belas pernas e as boas mãos serviam para outros intentos, menos ganhar dinheiro e ser uma celebridade pelo que delas se podia produzir.  Desde cedo, possuia a convicção que não apostaria, nem nos seus pés ou nas mãos como fonte de renda. "Sou um aleijado que ninguém ver" pensou. As duas coisas juntas serviriam de bom agrado para aproximar na amizade e no namoro.
Quando uma pessoa tocava no assunto, ele  se lembrava dos jogadores profissionais que possuíam as mulheres mais lindas, passeavam em carrões importados e participavam de comerciais de todo tipo e ainda tinham salários altíssimos garantido pelo talento no futebol. Novamente pensou : "o cara é bom de bola, poderia ter a arte de entrançar as pernas em outras pernas e por tabela ser garanhão." 
Se o pai via uma reportagem na televisão sobre um escritor famoso ganhando um prêmio, dizia: " ai meu filho, você vai ser assim igual esse tal escritor." Observava o escritor da moda e até arriscava  críticar o livro que foi adapatado para o cinema. As pessoas  na maioria nem poderiam ler o livro, mas o autor  com certeza ganharia muito grana com o filme ou a novela feito a partir do livro. Ele ria  disso e pensava sozinho: " Jamais, morrer de fome como escritor num pais de analfabetos". Ele sentiou com outra reflexão: "Algum dia alguém vai escrever sobre mim."   As pernas e o corpo podiam provocar suspiros de desejos das garotas e associadas com uma bola  e seus gols a fama de craque. Já com as mãos, ele produzia às palavras certeiras que descrevia encantamentos e lhe davam  a fama de talentoso “Don Juan”, isso lhe garantia a visibilidade que os demais rapazes queriam, mas ele até rejeitava. Sentava no canto da sala e era calado o tempo todo, para não chamar a atenção.
 O problema não era  o talento com a bola nos pés, especialmente a esquerda e ou com a caneta nos dedos também na esquerda. Havia outra coisa curiosa na vida dele. O rapaz só sabia fazer sexo se bebesse muito a tal ponto que ficasse de porre e isso não lhe agradava, preferia não ter o vocação com as mãos e nem com as pernas e ser simplesmente uma pessoa amorosa. Quem quer que fosse, bonita e  atraente, ele só ia para a cama, se estivesse bastante bêbado, sem nenhuma razão na cabeça. Seria da idade ? Um porre que apagava e retirava o juízo e lhe escondesse a memória e desse coragem para superar toda a timidez. O tempo tratou de mostrar que não, havia outras coisas inconscientes por trás. Se fosse sóbrio para uma cama,  sentia-se como se tivesse com pés e mãos amarrados. O nosso campeão de bola e na caneta era um fracasso na arte de amar e ser amado. Isso era o comentário geral das pessoas longe dele, mas poderia ser rico e famoso. 
 A situação ficou séria com o passar do tempo. Pensou em ir a um médico e expor a situação.  Adiou o quanto pode e desistiu, com vergonha de ter o falar  para o doctor, deixou de lado e preferiu manter a honra de homem. E conviver com os cochichos dos outros sobre seu lado incompreensível. 
Ser rapaz simples que quando jogava futebol, dava dribles perfeitos deixando desnorteados os adversários e as  suas jogadas eram encantadas e com maestria, não era para ele algo de extraordinário se fosse um ponta esquerda. O que importava não era o gol, mas os lances da partida no campinho no final da tarde.  Depois do jogo, ganhando ou perdendo, ele sai com os amigos para beber e recebia comentários em alto e bom som de todos na mesa enquanto se tomava cerveja ou cachaça com refrigerante sobre ele no jogo. 
Na escola, não era diferente, acontecia do mesmo jeito, sendo que desta vez era as mãos, ou melhor, com o que ele fazia com elas. Quando tinha um papel e um lápis, ele escrevia palavras que se transformavam em textos e ganhava a fama de inteligente. Parece que conseguia juntar tudo de forma perfeita como se já fosse escritor. Novamente, viam os elogios do que escrevia admirado por todos os alunos. A professora de português que era conhecida como carrasco e o terror na escola, tinha uma exceção que era ele, fazia questão de ler a redação olhando para todos na sala como se falasse implicitamente seguiam o exemplo dele. Outros professores elogiavam como ele tinha o poder da palavra nas mãos quando redigia. Para ele, queria ser tudo menos ser jogador de futebol e nem tão pouco escritor ou qualquer profissão assim.
A infelicidade se transveste de situações humanas assim na vida das pessoas de forma inusitada. Quando leio a vida de jogadores no passado como Garrincha ou Adriano atual, parece que a história só se repete indefinidamente. Ter certas habilidades que outros gostariam de ter, no caso aqui relatado, pode ser um tormento quer seja com os pés ou com as mãos. Há escritores que sofrem com o seu talento, se isolam da sociedade e do convivio com os amigos  e familiares. São incompreendido pelo que escrevem ou como expoem a realidade. Imagine ter as duas coisas juntas.  
O campeão até  desperta a inveja de quem está ao seu lado, mas ele está convicto de não ser nenhuma das duas opções e que na visão da maioria das pessoas seria fácil de resolver. Nesse caso, a capacidade de amar alguém lucidamente é a sua maior tornenta. O rapaz só tem pulsão sexual com o uso do alcool. e por isso vive solitário. O que podemos concluir que a vida é ter a capacidade de enxergar por ângulo diferente a situação que vivemos e não acreditar que tudo é fácil para aqueles que elegemos como privilegiadas habilidades. E por outro lado, as relações humanas não são tão fáceis de resolver.

DIÁLOGO COM O BARQUEIRO


Caro barqueiro que silenciosamente rema sobre o rio da existência humana, levando-nos da vida à morte e por vezes em sentido contrário, gostaria de expor impressões que fazemos a respeito da sua presença nessa travessia fatal. Tantos já ficaram em sua companhia, as vezes assustados e noutras familiarizados com  sua forte presença que esqueceram de menciona-lo por medo no diário de bordo. Tê-lo perto assusta, é verdade. Mas intimidação não é propriamente que vem de você,  devo confessar que vivemos com os outros humanos e da tal convivência tiramos esse medo. Temos um certo prazer em aterrorizar o outro, infernizar a vida alheia que nos transmite felicidade, possuimos o dom em retirar o sossego das pessoas calmas, não poupamos ninguém nessa arte de ser inferno. Portanto, quando encontramos alguém enigmático, ficamos  amedrontados e sem ação, acreditamos que vai também fazer o mesmo como nós.
Quero lhe relatar outra coisa que pensei erradamente. Ainda tenho os créditos para ficar na nau: São as palavras que nos retroalimentam. As vezes, digo algo para animar a navegação pelo espaço rumo ao relógio do infinito. Palavras pronunciadas ou escritas para nos livrar do tempo escuro que insiste em nos cobrir, será tempestade? Há ainda as palavras subentendidas que deixo no ar. Análise que estava sem crédito por que navegava quieto nos ultimos dias, uma quietude igual a sua: silenciosa. Então, vi que as palavras rolavam como água que caem da cachoeira. Reme, reme...para o barco não vira, olé olá...Se essa canoa não virar chegaremos lá. 
Estive na proa a ver as ilhas, mulheres lavando roupas as margens do rio, pescadores lançando redes em busca de peixes para se alimentarem e crianças mergulhando no leito fluvial. Cada um cumprindo a sina e respeitando a correnteza que flui uma única vez, como disse o filosófo. 
O mais dificil da viagem naútica é ver aqueles que já não falam mais nada, ao contrário calaram-se e trocaram os créditos por latidos e ladram das laterais do rio feito cachorros ao nos ver passar. Sofrem com a terceira margem do rio e já não vão a lugar nenhum, estão parados e esquecerem que sabem nadar, poderia morrem afogados caso quisessem entrar nas águas da vida, ficariam aflitos e afogariam não pelo rio e sim pela vaidade da saliva que possuem em suas bocas. A felicidade da viagem está em enfrentar seus medos. Ser feliz não para covardes, é coisa de o humano.