sábado, 22 de maio de 2010

Jornada Silenciosamente pensada

Estou pensando nos momentos de isolamento e o cenário sempre é minha casa, lugar sem expectadores que possam aplaudir ou vaiar depois do que faço nessas horas. Não penso parado e sozinho. Falo só, e pela casa. Converso com os objetos na hora de retirar a poeira, gesticulo quando caem das mãos e aumento a entonação da voz reclamando depois de achá-los.
Na arte de fazer silêncio e pensar, não se precisa de ir até a praia deserta, ao parque ou a praça ou até mesmo viajar para ficar comigo mesmo, ficar em silêncio e pensar. Acredito que a maioria das pessoas fazem assim, faço o oposto.
Quando estou lavando as roupas no tanque, me limpo falando com elas ao mesmo tempo em que tiro a sujeira, o suor, as secreções e os fedores que ficam em certos cantinhos das roupas. Roupa suja se lava em casa e sou minucioso. Nem preciso de tanto sabão em pó e água sanitária. Deixar de molho seria insanidade desse delírio. Depois de limpas e secadas pelo sol, vou passá-las a ferro. Ai sim que o silêncio fica explicito nos meus pensamentos: falo, falo e falo, e demais com cada peça, as roupas podem ter almas próprias com as histórias vividas. Um alívio no peito, e isso me trás a lucidez. Conversar com ninguém é uma condição de se entender e saber quem somos.
É um "reality show" onde o próprio participante se elimina e seleciona outro "eu" para continuar a vida: "phenix" sem referência de fogo. Me reconheço nesses situações mais do que se tivesse a se olhar no espelho calado e narcisicamente depois do banho, enquanto enxugo e procuro algo, um detalhe antes esquecido para se amar no corpo.
Em certas ocasiões, dou para rir alto e sem grandes motivos. Ouço música, danço e giro até ficar tonto, depois sento no sofá encosto a cabeça, olho o teto e fingo fumar um cigarro invisivel. Noutras vezes, não estou para ninguém mesmo. Fecho as janelas e cortinas, apago as luzes da casa, desligo o telefone... digo que morri por enquanto.
No entanto, a maior chance que dou a mim mesmo é escrever. Quando coloco as palavras silenciosas no papel, me escuto duas vezes. Releio o que escrevi, retiro o que disse no papel ou acrescento outras coisas. As palavras se tornam a pura expressão do silêncio falado em mim. Acaricio a cabeça como ninguém me fez, nem com palavras e nem com os sons da boca.

2 comentários:

G. Rafaelly disse...

Caramba essa história é d+, amei...
Mas é verdade, as vezes estamos em casa sozinhos e converssamos com nós mesmos, cantamos,isso para jogar fora a tristeza, para quebrar o silêncio, se a gente conta isso á alguem vão nos chamar de loucos, mais as vezes precisamos fazer essas certas loucuras para refletir as nossas vidas, sonhar um pouco com o que não temos...

kataline disse...

Adorei!!!
Posso dizer que já passei por quase tudo isso,é uma história muito reflexiva,onde podemos nos peguntar para que precisamos disso?Eu posso dizer que é uma experiência, poder ficar um tempo sozinha longe de todo o mundo,e pensar no que as vezes fazemos de errado,no que fazemos de certo,e no que deveriamos ter feito e não fizemos.É, passar momentos longe da vida conturbarda da cidade,expressar nossos sentimentos em musicas,livros e sonhos....

Kataline A.
2º ano Clégio Equipe